Ressuscitou Cristo, Filho de Maria. Cântico de Domingo de Páscoa.cedido por: Joaquina Monteiro

Ressuscitou Cristo, Filho de Maria. Cântico de Domingo de Páscoa.

cedido por: Joaquina Monteiro

Longe, Longe a Mundana Cegueira. Cântico de Páscoa. cedido por: Joaquina Monteiro

Longe, Longe a Mundana Cegueira. Cântico de Páscoa. 

cedido por: Joaquina Monteiro

Censo 1960. “Famílias, conivências, segundo o sexo, estado civil e a religião, indicando os temporariamente ausentes, por distritos, concelhos e freguesias”. Extracto relativo às freguesias do Concelho de Almeida.

Censo 1960. “Famílias, conivências, segundo o sexo, estado civil e a religião, indicando os temporariamente ausentes, por distritos, concelhos e freguesias”. Extracto relativo às freguesias do Concelho de Almeida.

É domingo. Canta o pintassilgo!

Expressão que denota felicidade, por o Domingo ser um dia destinado ao descanso e ao lazer. Utilizada também para dissuadir outro indivíduo de realizar algum afazer. A pessoa por analogia com o pintassilgo, ave conhecida por cantar.

Adeus Junça

Adeus ó Junça de encanto
Terra de amor e beleza
Encobre com o teu manto
A minha dor e tristeza.

De deixar todos aqueles
Que já me tinham afeição
Pois eu neles também deixo
Parte do meu coração

Adeus ó fonte dos amores
Situada entre penedos
Aos teus apaixonados
Sempre encobriste segredos.

Testemunha sempre muda
De violentas paixões
Ajudaste a alimentá-las
Ciciando-lhe canções

Tua nascente gotejante
Com gotas a pingar
Parece que estás contando
Os beijos que viste dar.

Adeus ó gruta da saudadee
Onde estudante apaixonado
Gravou o seu coração
Por dura seta, varado.

Adeus ó cascata da rasa
Onde a água em cachões
Ruge e espuma furiosa
Como famintos leões.




Adriano A. Pinto da Silva


Vasco Miranda, “Recensão crítica a ‘Mundo e Contramundo’, de Wilson Chagas” in: Revista Colóquio/Letras. Recensões Críticas, n.º 16, Nov. 1973, p. 99-100.

 

Choça e Roupeira com o Burro, Fotografia exibida na exposição Agricultura nos Campos da Idanha. Centro Cultural Raiano, Idanha-a-Nova. (Segunda metade do século XX)
"Já referi noutro texto de que forma os burros estavam presentes na vida quotidiana do mundo rural de não há muitas décadas. Vejamos agora mais um exemplo de como, de facto, assim era. Desta vez o nosso amigo acompanha uma roupeira, isto é, a mulher a quem incumbe fazer e tratar os queijos, que por norma é a mulher do pastor, cujas mãos, como repete o povo, deveriam ser bastante frias para que o queijo tivesse a melhor qualidade. A fotografia que ilustra o texto, e lhe serviu de mote, acha-se exibida numa exposição notável que está patente no Centro Cultural Raiano, em Idanha-a-Nova, sobre a agricultura nos campos de Idanha e que recomendo vivamente. Na imagem, um burro e uma mulher sobressaem diante de uma choça. O burro está devidamente albardado. Sobre o albardão, sacas de serapilheira protegem o pano de linho cru que por norma forra o arreio. De notar, para alem do chocalhinho que traz ao pescoço, é a embocadura. Geralmente, aos burros apenas é reservado o freio quando engatados à carroça, raramente em lavouras, preferindo-se aí a serrilha, e só excepcionalmente quando fazem serviços de sela. Acontece que este burro dá ares de teimoso, aliás como indica o pescoço levantado em posição ameaçadora. Assim, para melhor o dominar, a nossa amiga roupeira prefere o freio, como atesta o documento.Outro pormenor interessantíssimo da fotografia agora reproduzida é a própria choça. Trata-se de um exemplar da arquitectura popular hoje apenas registado em documentos gráficos, mas que outrora pontilhou com relativa abundância não só os campos da Idanha mas, de um modo geral, a paisagem de toda a Beira Baixa. Estas construções efémeras, em madeira e em colmo, serviam de casa de habitação aos pastores. Normalmente, uma família ou grupo de pastores tinha várias destas dependências. Uma destinava-se a fazer e curar os queijos. A outra destinava-se a dar guarida às pessoas. Ali dormiam, ali comiam, ali se abrigavam da chuva, do vento e do frio, no rigor do inverno beirão. Toda a vida girava em torno da choça, nem mesmo o lar aí faltava, em cujo fogo se aquecia o leite, se fazia o soro e secava o fumeiro.Conheço várias pessoas que foram criadas em choças, e as mesmas afiançam que eram quentes, impermeáveis e cómodas. Todavia, a nota do que um dia me aconteceu a seu propósito, ilustra o que as mesmas representam para quem as vê por dentro, e não com o interesse diletante de quem as observa enquanto aspecto notável da arquitectura popular portuguesa. Foi assim: certo dia, tratando de organizar uma exposição etnográfica na minha aldeia, ao abrigo de um programa comunitário destinado aos jovens, ao qual concorri com um grupo informal de jovens, então designado por Grupo Informal de Jovens Raianos Para o Desenvolvimento da Raia Beirã, entendi que talvez fosse interessante construir uma choça, para os mais novos contextualizarem os discursos da vida difícil de antigamente que os mais velhos repetem muitas vezes, face à incredulidade indiferente das novas gerações. Dirigi-me então a um certo indivíduo que as sabia construir. Deu-me algumas explicações e pormenores sobre a sua construção, mas quando lhe pedi que me fizesse uma disse- O tempo da escravidão já acabou!Estas palavras ainda hoje ecoam no meu espírito. De facto esta gente foi absolutamente escravizada; eram como animais. Enquanto o burguês terratenente, dono do gado, dormia no seu quarto interior, num leito de ferro, em cama de enxergas de palha centeia, recostado num travesseiro, coberto por lençóis de linho e cambraia fina, o pastor da choça dormia no chão, rente ao lar, sobre uma esteira, enrolado numa manta de trapos. Não insisti. Entendi que seria difícil explicar àquele rústico o interesse pedagógico em reproduzir um estilo de vida à imagem de uma choça de colmo. Hoje, no actual contexto do país, quando oiço alguns protestar pelos direitos adquiridos, e outros dizer que não houve vitórias em Abril, cada vez mais me convenço da necessidade de construir não uma, mas muitas choças de colmo.”Pedro Rego, "O Burro, a Choça e a Roupeira - metáfora para um modo de vida", http://museudoburro.blogspot.pt/.

Choça e Roupeira com o Burro, Fotografia exibida na exposição Agricultura nos Campos da Idanha. Centro Cultural Raiano, Idanha-a-Nova. (Segunda metade do século XX)

"Já referi noutro texto de que forma os burros estavam presentes na vida quotidiana do mundo rural de não há muitas décadas. Vejamos agora mais um exemplo de como, de facto, assim era. Desta vez o nosso amigo acompanha uma roupeira, isto é, a mulher a quem incumbe fazer e tratar os queijos, que por norma é a mulher do pastor, cujas mãos, como repete o povo, deveriam ser bastante frias para que o queijo tivesse a melhor qualidade. A fotografia que ilustra o texto, e lhe serviu de mote, acha-se exibida numa exposição notável que está patente no Centro Cultural Raiano, em Idanha-a-Nova, sobre a agricultura nos campos de Idanha e que recomendo vivamente. 
Na imagem, um burro e uma mulher sobressaem diante de uma choça. O burro está devidamente albardado. Sobre o albardão, sacas de serapilheira protegem o pano de linho cru que por norma forra o arreio. De notar, para alem do chocalhinho que traz ao pescoço, é a embocadura. Geralmente, aos burros apenas é reservado o freio quando engatados à carroça, raramente em lavouras, preferindo-se aí a serrilha, e só excepcionalmente quando fazem serviços de sela. Acontece que este burro dá ares de teimoso, aliás como indica o pescoço levantado em posição ameaçadora. Assim, para melhor o dominar, a nossa amiga roupeira prefere o freio, como atesta o documento.

Outro pormenor interessantíssimo da fotografia agora reproduzida é a própria choça. Trata-se de um exemplar da arquitectura popular hoje apenas registado em documentos gráficos, mas que outrora pontilhou com relativa abundância não só os campos da Idanha mas, de um modo geral, a paisagem de toda a Beira Baixa. Estas construções efémeras, em madeira e em colmo, serviam de casa de habitação aos pastores. Normalmente, uma família ou grupo de pastores tinha várias destas dependências. Uma destinava-se a fazer e curar os queijos. A outra destinava-se a dar guarida às pessoas. Ali dormiam, ali comiam, ali se abrigavam da chuva, do vento e do frio, no rigor do inverno beirão. Toda a vida girava em torno da choça, nem mesmo o lar aí faltava, em cujo fogo se aquecia o leite, se fazia o soro e secava o fumeiro.

Conheço várias pessoas que foram criadas em choças, e as mesmas afiançam que eram quentes, impermeáveis e cómodas. Todavia, a nota do que um dia me aconteceu a seu propósito, ilustra o que as mesmas representam para quem as vê por dentro, e não com o interesse diletante de quem as observa enquanto aspecto notável da arquitectura popular portuguesa. 
Foi assim: certo dia, tratando de organizar uma exposição etnográfica na minha aldeia, ao abrigo de um programa comunitário destinado aos jovens, ao qual concorri com um grupo informal de jovens, então designado por Grupo Informal de Jovens Raianos Para o Desenvolvimento da Raia Beirã, entendi que talvez fosse interessante construir uma choça, para os mais novos contextualizarem os discursos da vida difícil de antigamente que os mais velhos repetem muitas vezes, face à incredulidade indiferente das novas gerações. 
Dirigi-me então a um certo indivíduo que as sabia construir. Deu-me algumas explicações e pormenores sobre a sua construção, mas quando lhe pedi que me fizesse uma disse- O tempo da escravidão já acabou!
Estas palavras ainda hoje ecoam no meu espírito. De facto esta gente foi absolutamente escravizada; eram como animais. Enquanto o burguês terratenente, dono do gado, dormia no seu quarto interior, num leito de ferro, em cama de enxergas de palha centeia, recostado num travesseiro, coberto por lençóis de linho e cambraia fina, o pastor da choça dormia no chão, rente ao lar, sobre uma esteira, enrolado numa manta de trapos. 
Não insisti. Entendi que seria difícil explicar àquele rústico o interesse pedagógico em reproduzir um estilo de vida à imagem de uma choça de colmo. 
Hoje, no actual contexto do país, quando oiço alguns protestar pelos direitos adquiridos, e outros dizer que não houve vitórias em Abril, cada vez mais me convenço da necessidade de construir não uma, mas muitas choças de colmo.”

Pedro Rego, "O Burro, a Choça e a Roupeira - metáfora para um modo de vida"
http://museudoburro.blogspot.pt/.

Chôço de pastor, Boletim Pecuário, nº 2, 1945."Pelos campos, afastados dos povoados há habitações de carácter provisório que os pastores utilizam enquanto os rebanhos dormem nos priscos ou malhadas, onde estrumam: são as choças, pranchas de palha de centeio de uma superfície aproximada de 240dm2, rectangulares, levantadas ao alto e apoiadas em estacas e opostas sempre ao sítio donde mais sopra o vento e donde mais frequentemente vem a chuva; os chôços, construídos com palha ou giestas têm o feitio cónico, sendo a palha acamada com espigas para baixo para escorrer a água das chuvas, e cingidas por cordões de palha ou ramos verguios de árvores que impedem que a habitação se desbarate, tendo um buraco ou entrada por onde o homem penetra debruços; o chôço admite ainda uma variedade que é a de um prisma triangular assente sobre uma das faces rectangulares, também fabricado com palha ou giesta, servindo uma das faces triangulares de entrada, aberta ordinariamente para SE e sendo a aresta oposta à face-base a cumieira ou linha do cume.”Carlos Alberto Marques, "Subsídios para o estudo da Geografia de Portugal. A Bacia Hidrográfica do Côa". Separata da revista Biblos, vol. XI (Coimbra, 1935), pp. 388-419, e vol. XII (1936), pp. 172-211.

Chôço de pastor, Boletim Pecuário, nº 2, 1945.

"Pelos campos, afastados dos povoados há habitações de carácter provisório que os pastores utilizam enquanto os rebanhos dormem nos priscos ou malhadas, onde estrumam: são as choças, pranchas de palha de centeio de uma superfície aproximada de 240dm2, rectangulares, levantadas ao alto e apoiadas em estacas e opostas sempre ao sítio donde mais sopra o vento e donde mais frequentemente vem a chuva; os chôços, construídos com palha ou giestas têm o feitio cónico, sendo a palha acamada com espigas para baixo para escorrer a água das chuvas, e cingidas por cordões de palha ou ramos verguios de árvores que impedem que a habitação se desbarate, tendo um buraco ou entrada por onde o homem penetra debruços; o chôço admite ainda uma variedade que é a de um prisma triangular assente sobre uma das faces rectangulares, também fabricado com palha ou giesta, servindo uma das faces triangulares de entrada, aberta ordinariamente para SE e sendo a aresta oposta à face-base a cumieira ou linha do cume.”


Carlos Alberto Marques, "Subsídios para o estudo da Geografia de Portugal. A Bacia Hidrográfica do Côa". Separata da revista Biblos, vol. XI (Coimbra, 1935), pp. 388-419, e vol. XII (1936), pp. 172-211.

Vasco Miranda, “Recensão crítica a ‘Desde Que o Mundo e 32 Poemas de Intervalo’, de Glória de Sant’Anna de Sena” in: Revista Colóquio/Letras. Recensões Críticas, n.º 19, Maio. 1974, p. 82-83.

"Fazer a festa e apanhar as canas!"

Antes da recente legislação que veio proibir o lançamento de pirotecnia durante os meses de Verão, os foguetes marcavam presença habitual nos céus do Interior. De facto, não havia festa ou romaria que se prezasse, da mais religiosa à mais profana, que não se fizesse acompanhar pelo inevitável atroar dos foguetes, expressão popular da exultação colectiva e voz audível do povo, já com honras de tradição nas devotas povoações de Riba Côa.

Para os mais afoitos, o protocolo dos foguetes revestia-se de um encanto particular, como se de um cerimonial profano, também ele dotado de estações bem definidas, se tratasse; que, engane-se quem assim o pensa, não se esgotava no mero ribombar do morteiro. A “etnografia dos foguetes” fazia-se também do perigo do lançamento das bombas presas à cana, assobiando, subindo a preceito e com a devida cadência depois de acesas com a corda em brasa, acompanhando a banda filarmónica ou a alvorada da povoação para o dia de festa. Assim, como à posteriori, das brincadeiras com os petardos, presos aos cães, lançados ao rio para apanhar uns tantos peixes, ou entre os miúdos que ingenuamente e à falta de outras distracções procuravam coleccionar as canas que depois se dispersavam pelas imediações da povoação, ainda que com um ou outro incidente, por vezes com consequências graves, à mistura.

Sendo a festa uma manifestação colectiva, a expressão “fazer a festa e apanhar as canas”, ou “fazer a festa, lançar os foguetes, e apanhar as canas” aplica-se a alguém que de modo ingénuo (frequentemente uma criança) não precisa de ajuda para se alegrar com algo de que é autor, não esperando pelos outros para dar continuidade ao seu regozijo.


Vasco Miranda, "Recensão crítica a 'Exorcismos', de Jorge de Sena in: Revista Colóquio/Letras. Recensões Críticas, n.º 14, Jul. 1973, p. 77-78.´

Vasco Miranda, "Cinco dos Cantos da Cativa Liberdade (VI; VIII; X; XI; XIV)" in: Revista Colóquio/Letras. Poesia, n.º 17, Jan. 1974, p. 67-69. 


"A cavalo dado não se olha o dente!"

expressão popular. Uma das formas utilizadas pelos antigos comerciantes de animais para avaliar os equídeos, como burros, mulas, machos ou cavalos, consistia em pura e simplesmente abrir a boca do animal e olhar-lhe para os dentes. Isto permitiria alegadamente estimar a idade e saúde do animal através da dentição, e a partir daí tecer considerações e estabelecer um valor base para o negócio.

O que o ditado diz é que quando se trata de uma oferta não se deve procurar estimar o seu valor, por menor que aparentemente seja. É utilizada quando alguém recebe algo de outra pessoa e essa mesma pessoa, ou alguém, o adverte para a sua pouca valia. Consiste numa reafirmação por parte do beneficiado da dignidade da atitude do benemérito, sobre o objecto em causa. Semelhante a “o que conta é a intenção!”

Correspondência de guerra, de Artur Pinto da Silva para a irmã Lucinda Pinto da Silva. Lutou pelos aliados na Primeira Guerra Mundial.

na verso: Irmã amiga Lucinda mando-te estas 3 cartas para veres onde estou. Sou eu que as escrevi mas não sou eu que as mando, é a minha rapariga que tem lembrança de te dar novidades das terras onde andou a guerra tudo tombado nestes povos nem meia casa ficou de pé. Até dói o coração em ver isto.

 

Correspondência de guerra, de Artur Pinto da Silva para seus pais, Godofredo Pinto Silva e Maximina de Jesus. Lutou pelos aliados na Primeira Guerra Mundial.

na frente do postal: "L’Argonne près la Guerre. AUTRY (Ardennes) L’ Église où pendant de longs mois les Allemands endermèrent sans soins 300 vieillards et enfants du Village et des Environs"

no verso: esta é a igreja onde os alemães “ficharam” 300 homens velhos e garotos (do povo). muitos beijos a todos da família.